MUDAR DE VIDA

Parece que toda a gente à minha volta está insatisfeita com a vida que tem, principalmente a nível profissional. Há muita gente desempregada ou em trabalhos precários. Há muita gente que teve que emigrar para conseguir trabalhar. Há muita gente que estudou muito na área que o apaixona e que teve que abandonar para fazer o que apareceu, para ter um ordenado da treta ao final do mês. Estes, toda a gente compreende que estejam insatisfeitos.

No entanto, há igualmente muita gente que tem o trabalho que sempre desejou e é bem pago por isso e também está insatisfeito. Querem mais e melhor. Ou querem diferente. Ou não sabem o que querem. Sabem apenas que não se sentem no seu melhor. Que não têm tempo para fazer as coisas que realmente os apaixonam porque as obrigações que têm os deixam assoberbados.

Eu própria, tenho a profissão que escolhi e estou insatisfeita. A nível de ordenado recebo o espectável para a função que desempenho ou seja, não andei iludida a achar que ía receber mais. Vejo muitas vantagens na minha profissão, principalmente a disponibilidade que consigo ter para os meus filhos sempre que necessário. Mas mesmo assim, estou insatisfeita. Muito insatisfeita. Há-de haver quem esteja a pensar que estou armada em parva e que tenho mais é que agradecer o facto de ter um trabalho. A esses posso dizer que me sinto muito grata por ter este trabalho, porque me tem sustentado a mim e aos meus e porque me permite dar aos meus filhos o apoio de que as crianças pequenas precisam. No entanto, não quero ter este trabalho a vida toda porque sinto que há mais e melhor reservado para mim. Sinto que mereço ter uma profissão que me permita dar o melhor de mim e ser melhor a cada dia.

Hoje sei que quando escolhi a minha profissão, não o fiz pelos motivos correctos. Apesar de os meus pais nunca me terem influenciado neste sentido, nem noutro qualquer, tudo à minha volta me condicionou. Há um percurso que se espera que as pessoas percorram. E eu, como “boa miúda” e “atinada” que era, percorri o meu.

São muito poucos os abençoados que aos 13 ou 14 anos, quando o sistema de ensino lhes começa a exigir as primeiras escolhas, fazem ideia o que querem fazer no resto das suas vidas.

Eu andei até os trinta e tal sem saber o que queria ser quando fosse grande.

Mesmo os que acham que sabem, acabam muitas vezes por mudar de ideias porque os interesses vão mudando há medida que crescem, porque as coisas que valorizam se alteram, porque surgem novas possibilidades, porque conhecem novas pessoas ou novos lugares que os inspiram.

Quando isto acontece, quando a mudança começa a apetecer, há quem tenha maturidade para reestruturar a sua vida, dar um passo atrás e reinventar-se e há quem não tenha. Há quem pense que é tarde de mais. Eu percebi no início da faculdade que não estava no caminho certo, mas não quis ouvir aquela vozinha que insistentemente na minha cabeça me dizia que tinha que voltar atrás e recomeçar. Não quis ouvir, porque era difícil, porque não sabia que nova direcção seguir, porque exigia coragem,  porque exigia deixar para trás uma vida que eu estava a adorar. Eu era uma miúda e não tinha noção do peso que a não mudança teria na minha vida.

 

Hoje sei o que quero e como lá chegar. Não foi fácil descobrir, deu muito trabalho, foi necessário desconstruir-me para perceber como montar o puzzle novamente. Agora que sei para onde vou, estou a caminho. É um caminho mais longo e demorado porque tenho dois filhos e não posso pura e simplesmente jogar tudo para trás das costas como teria feito aos vinte anos, mas estou a caminho.

A todos os insatisfeitos eu tenho vontade de dizer, muda-te. Mas quem sou eu para o fazer? Cada um sabe da sua vida e dos seus condicionamentos. Cada um que decida como viver.

Quanto a mim, não desisto. Quero chegar ao final da vida, bem velhinha, olhar para trás e sentir que valeu a pena. Quero sentir que vivi intensamente, que me diverti, que me melhorei a cada dia, que me amei e me tratei bem e que por tudo isto dei o melhor de mim.

Aos mais novos, aqueles que ainda estão a estudar ou a ingressar no mundo do trabalho e se estão a aperceber que não é por aí, grito a plenos pulmões: – “NÃO É TARDE PARA MUDAR. VOLTA ATRÁS E RECOMEÇA.”

Grito isto porque por experiência própria sei que por mais difícil que seja mudar agora, acordar todos os dias de manhã para ir fazer um trabalho de que não gostamos e que nos rouba energia e alegria de viver, dia após dia, ano após ano, é MUITO pior.

 

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