O Ponto

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Uma história breve e simples que diz muito.

Numa aula de desenho, perante a folha de papel em branco, a Vera afirma.– Eu não sei desenhar”. A professora pede-lhe: “- Tenta fazer uma marca qualquer e vê onde ela te leva”. Irritada a Vera, com toda a força, crava um marcador no papel fazendo um ponto. A professora pede-lhe para assinar. Na aula seguinte, a Vera vê o seu ponto exposto, numa fantástica moldura dourada. Desde esse dia, a Vera pinta, pinta e pinta, dando asas a toda a sua criatividade.

O final da história é encantador. Não revelo. Têm que ler.

Este livro é um convite a todos, pequenos ou graúdos, para que deixem a sua marca. Citando o autor, Peter H. Reynolds: “Embora o tema seja sobre arte, na verdade, é sobre o processo criativo: ideias, pensamento criativo, expressão, originalidade, coragem e partilha.”

Perfeito.

Sugiro para maiores de 5 anos.

História Verdadeira e Triste de SEIS HOMENS Que Procuravam a Paz

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Hoje trago-vos o meu mais recente tesouro. Foi um presente inesperado e marcante.

“Era uma vez seis homens que correram mundo em busca de um lugar onde pudessem viver e trabalhar em paz”.

Os seis homens encontram esse lugar, constroem as sua casas, cultivam as suas terras e começam a enriquecer. Em vez de ficarem felizes por isso e de desfrutarem da riqueza e a partilharem e expandirem, à medida que enriqueciam cresciam as preocupações. Temendo que ladrões os roubassem, resolveram construir uma torre de vigia para verem se algum estranho se aproximava. Depois decidiram contratar seis soldados para os protegerem. A partir daí, nada continuou como antes e a paz que tanto desejavam perdeu-se.

As ilustrações são a traço fino, a preto e branco e juntamente com o texto são uma obra  prima que mostram o absurdo que é a guerra. Mostram o absurdo da condição humana que se entrega ao medo, à ignorância, à ganância e à sede de poder, impedindo-se de viver em paz.

Da autoria de David Mackee, esta história, já com mais de 40 anos, chegou há pouco a Portugal através da Nuvem de Letras, uma chancela do grupo Penguin Random House português, que anda a investir e bem na literatura infantil.

Recomendo MUITO para adultos e crianças a partir dos 6 anos.

 

 

 

HISTÓRIAS ESCRITAS NA CARA – cada avó é um livro de contos

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Este livro é um tesouro em todos os aspectos.  A escrita da Isabel Zambujal é irrepreensível, as ilustrações da Madalena Ghira são uma delícia e a história é daquelas que faz crescer o coração. É sem dúvida um dos meus livros preferidos.

Nesta história, há várias histórias. São histórias de vida que os anos que passam vão deixando marcadas no rosto de cada um.

A Clara, está de férias em casa da avó, numa aldeia chamada Suspiros. A avó está sempre pronta para contar uma história. Uma das que a Clara nunca se cansa de ouvir é sobre a origem do nome Suspiros.

“Mas as histórias de que a Clara mais gostava era daquelas que estavam escritas no rosto da avó: por curtas ou compridas linhas junto aos olhos, perto da boca ou na testa, por pequenas sardas instaladas na ponta do nariz e até por uma cicatriz que lhe dava um ar de eterna traquinas.

O ritual era sempre o mesmo: fosse nas noites com espírito de Natal ou naquelas que cheiravam a Verão, a avó passava os serões a contar as experiências de vida à Clara.”

Todas as histórias contadas pela avó são encantadoras. A minha preferida e que faço questão que os meus filhos um dia conheçam é a história de uma ruga que se chama Ernesto e que está associada a um terramoto que houve no dia em que a avó fez doze anos.

Em vez da festa de aniversário, a família começou a organizar meios para ajudar os mais afectados. “O frio estava a chegar e depois de o chão ter tremido iam tremer muitos dentes. O nosso ajudante, o Ernesto, era um gaiato de nove anos que já era pobre antes de ter nascido… o pequeno Ernesto nunca desanimava e dizia-me: «Menina, pé de pobre não tem número. E pobre não troca de roupa, a roupa é que troca de pobre. Vai primeiro para o irmão pobre, depois para o primo pobre, depois para o neto pobre, e assim por diante, até a pobre roupa já não perceber se nasceu camisola ou cachecol.». E no meio daquela pobreza, o franzino Ernesto, sem nunca saber, ensinou-me uma lição valiosa: nós temos quase sempre mais do que aquilo de que precisamos.”

É uma lição que a maior parte de nós sabe, mas que muitas vezes esquece.

Os livros ditos para crianças têm muito para ensinar aos adultos.

Este livro, é um daqueles livros que deixa eco.

Recomendo para maiores de 7 anos.

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Vamos à caça do urso

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Mais um livro para os mais novos. Repetitivo e carregadinho de onomatopeias como os pequeninos adoram, é sempre um dos preferidos nas sessões de histórias.

Conta a história de uma família que sai de casa para ir à caça do urso e encontram vários obstáculos que têm que ultrapassar. Encontrada a gruta onde está o urso, o melhor é fugir dali bem depressa.

A história é simples e descabida, mas se os pais se soltarem um bocadinho e mergulharem de cabeça na história, exagerando bastante no suspense e dando vida às onomatopeias, todas as crianças se divertem. Já disse isto muitas vezes no blog, mas repito: – Pais, soltem-se a contar histórias aos vossos filhos. Eles são o melhor público que podem ter. Divirtam-se 😉

Recomendo para maiores de 18 meses.

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As ANTIPRINCESAS

Com o nome de “Antiprincesas“, a colecção da editora Tinta da China, conta com quatro títulos.  O primeiro deles conta a história da artista Frida Kahlo, o segundo foi dedicado à chilena Violeta Parra, o terceiro à boliviana e militar Juana Azurduy e o último à escritora Clarice Lispector.

Na contracapa de cada livro podemos ler:

As antiprincesas não são do contra só porque sim: não se resignam, e lutam para fazer valer aquilo que pensam. Como não usam tiaras, podem virar tudo de pernas para o ar e arriscar o que bem lhes apetece, como por exemplo mudar o mundo. Mesmo não tendo superpoderes, as antiprincesas são superpoderosas e sabem que a história é feita pelas mulheres reais. “

Esta colecção surge com a intenção de inspirar as meninas e mostrar que elas podem ser muito mais do que princesas.  Estas “antiprincesas” são contra a passividade e a submissão; inspirando meninas a serem as protagonistas das suas próprias vidas gozando da liberdade que é poder escolher o seu próprio caminho.

Há certamente quem se vá insurgir, achando que uma ou outra destas antiprincesas não foram bem escolhidas.  A esses digo que, tal como qualquer outra mulher, estas mulheres não eram perfeitas. Eram  mulheres reais. Perfeitas são as princesas da Disney e não é isso que se pretende nesta colecção. Que as nossas meninas queiram ser todos os dias melhores do que no dia anterior acho fantástico, mas que não pretendam ser super-mulheres ou viverão frustradas a vida inteira.

Se me perguntassem que mulher gostaria de ver retratada nesta colecção, eu responderia sem pestanejar, Madre Teresa de Calcutá.

Destas quatro, a minha preferida é a Juana Azurduy. Nunca tinha ouvido falar dela nem dos seus feitos e fiquei encantada.

Recomendo para adultos e maiores de 10 anos.

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Frida Kahlo

Foi uma importante pintora mexicana do século XX. É considerada, por alguns especialistas em artes plásticas, uma artista que fez parte do Surrealismo. Porém, a própria Frida negava que era surrealista, pois dizia que não pintava sonhos, mas sim a  sua própria realidade. Destacou-se ao defender o resgate à cultura dos astecas como forma de oposição ao sistema imperialista cultural europeu.

Frida teve uma vida de muito sofrimento. Uma doença na infância fez com que a sua perna direita crescesse menos do que a esquerda. Um acidente que a deixou na cama durante longos meses e a obrigou a muitas cirurgias. Um relacionamento doentio com o marido, com amantes e violência. Consumo abusivo de álcool, principalmente depois do divórcio. Impossibilidade de ter filhos e três abortos.

No livro não fala no álcool, já no que diz respeito à relação com o marido, cito: “Diego e Frida casaram-se não uma, mas duas vezes. Apesar disso tiveram outros amores, mesmo vivendo juntos. Como noutras coisas, o sentimento amoroso foi mais partilhado do que era costume naquela época. Os amigos e amantes eram muitos, e para Frida o amor tanto de refletia em homens como em mulheres”

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Violeta Parra

Viajou pelos lugares mais remotos do Chile a fazer uma recolha de canções tradicionais e assim as salvou do esquecimento. Era autodidacta, aprendendo sozinha a tocar vários instrumentos, a pintar e a bordar. Aprendeu a tocar guitarra sozinha e em segredo com a guitarra do pai.

Proveniente de uma família humilde, com a mãe costureira e o pai professor, ambos com gosto pela música folclórica.

Casou duas vezes e teve quatro filhos.

Fez programas na radio, gravou discos, ganhou prémios, fundou um museu e foi a primeira artista latino-americana a ter uma exposição individual no Louvre.

“Fez-se um grande silêncio. Apesar de não compreenderem aquela língua, as pessoas comoveram-se com a voz profunda que lhes falava de um país distante: ela era a voz dos pobres, das lavadeiras, das apanhadeiras de fruta, dos mineiros, dos artistas de rua…

A atuação de Violeta comoveu de tal maneira as pessoas daquele país frio, que no dia seguinte, enquanto ela caminhava pelas ruas, lançaram-lhe flores das varandas.”

Teve um final trágico. Suicidou-se.  No entanto, no livro, somos poupados a esta informação.

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Juana Azurduy

Ao aperceber-se da vida difícil e injusta do povo da Bolívia, não conseguiu ficar indiferente.  Juntamente com o marido, Manuel Padilla, enfrentou a cavalo muitas batalhas  pela libertação da América do Sul.

De saia branca, casaco vermelho, com os filhos nos braços e seguida por outras amazonas, tornou-se guerreira muito antes de serem admitidas mulheres no exército.

“O que mais chamava a atenção dos realistas era uma mulher garbosa e de gentil presença que montava um cavalo brioso e percorria as ruas armada de pistolas e espada. Parecia chefiar as turbas invasoras, que a seguiam com um entusiasmo atroador e delirante. Desafiava a morte com indiferença, avançando bem perto das bocas dos canhões”

“Ao ver que a filha corria perigo de vida, rugiu com força, derrubou o chefe com um só golpe e falou aos outros em quéchua. Eles ficaram especados a vê-la apertar a filha contra o peito, saltar para o cavalo e lançar-se às águas revoltas do rio.”

Morreu velhinha, na casa onde vivia com uma das filhas, a neta e um menino que tinha a seu cargo. O funeral foi humilde, não teve as honras que uma heroína merecia.

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Clarice Lispector

Nasceu na Ucrânia numa família de judeus. Devido à perseguição religiosa de que eram alvo mudaram-se para o Brasil.

Jornalista e escritora, escreveu romances, contos e crónicas. Considerava-se uma anti-escritora porque, ao contrário dos grandes escritores que gostavam da solidão e isolamento para escrever, Clarice fazia questão de manter uma vida activa e por isso escrevia com a máquina de escrever no colo e os filhos a brincarem à sua volta.

Teve uma vida de luxo na Europa com o marido, um diplomata, mas nunca se identificou com aquele tipo de vida e acabou por abandonar a vida de princesa para voltar ao seu tão amado Brasil onde viveu junto ao mar até ao fim da sua vida.

Dizia sempre o que pensava e o que sentia.

“Sou uma mulher que escreve, porque para mim escrever é como respirar, necessário para sobreviver. Talvez por causa disso não goste de falar sobre os meus livros. O que eu tinha de dizer está neles. Acredito na interpretação de cada leitor. Sou como uma mãe animal. Os livros são as minhas crias, esqueço-me depressa deles. Não reconsidero, não analiso, não fomento em mim orgulhos falsos.”

A CASA DA MOSCA FOSCA

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Grande parte das pessoas que me têm enviado mensagens a pedir sugestões de livros, procuram histórias para bebés. Depois da fase dos livros com texturas, com sons, ou dos dicionários com as primeiras palavras, os pais querem começar a ler histórias aos bebés e saber o que comprar nem sempre é fácil.

Aqui fiz uma sugestão muito gira de um livro recente para bebés e hoje trago A CASA DA MOSCA FOSCA, um dos livros mais lidos cá em casa com o Francisco entre 2 e os 3 anos.

A mosca fosca decidiu construir uma casa para morar. Na casa há uma torta de amoras, há sete cadeiras, sete lugares à mesa, sete pratos e sete animais estranhos para merendar. Não há espaço para mais ninguém, mas eis que alguém bate à porta.

Uma história que é um divertido jogo com números, rimas e repetições que é muito apelativo para os leitores mais pequeninos.

Recomendo para maiores de 2 anos.

Mamã?

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O pequeno mocho caiu do ninho.

Ca-tra-pum. Oh, não!

O pequeno mocho está perdido. Não sabe da  sua mamã. Felizmente, um esquilo simpático decide ajudá-lo. Seguindo as descrições do pequeno mocho, o esquilo procura a mamã.

Uma história com um final feliz, ou talvez não, mas divertida e ternurenta, sem dúvida. 🙂

Como há muitos livros cá em casa e andamos constantemente de volta deles, o Francisco sempre teve o hábito de levar livros para a escola para as professoras contarem aos amigos. O Manuel, imita tudo o que o Francisco faz e por isso, muitas vezes, antes de sair de casa de manhã vai à estante buscar um livro para levar para a escolinha. Este já foi um dos escolhidos e fez sucesso.

Há muitos livros para bebés. Há livros com imagens tipo dicionário, livros para aprender as cores ou os números, livros com texturas ou com sons, mas livros de histórias que realmente sejam apelativos e façam sentido para os mais pequeninos, há poucos. Este é um deles e é muito bom.

Escrito e ilustrado por Chris Haughton e editado em Portugal pela ORFEU MINI

Recomendo para bebés a partir dos 12 meses.